Correio da Manhã, 19 Abril 2009 - 00h00
A Minha Guerra: Amílcar Pires - Angola 1965-1967
"Andei atrás de Che Guevara em Angola"
Tarefa dolorosa. Eram os mecânicos como eu quem saia dos
helicópteros para recolher os cadáveres dos nossos camaradas.
Contei mais de 60.
Saí dos Pupilos do Exército e fui para França tirar o curso de
rádio de helicópteros Alouette III. Depois, fui mobilizado para
Angola e colocado na Base Aérea 9, em Luanda, integrado na Esquadra
94. Depressa esqueci algumas teorias, pois no mato a realidade era
bem diferente e sujeita a muitas condicionantes. Nas evacuações,
éramos nós - os mecânicos, no meu caso de rádio -, que saíamos com
a maca para recolher os feridos e os mortos. Era uma tarefa
dolorosa.
Foram vários os Alouettes furados por projécteis inimigos mas, por
sorte ou perícia dos pilotos, nenhum foi abatido. Alguns caíram por
avaria e outros porque queríamos socorrer as nossas tropas em
sítios inacessíveis, muitos na mata angolana. Só de uma vez
morreram seis camaradas, um dos quais me pediu, à última da hora,
para ir no meu lugar.
Durante as missões, todos os tripulantes se uniam nas adversidades,
inventávamos e com espírito de humor, mas com responsabilidade,
dizíamos: 'Isto está preso por arames, mas voa!' Foram vários os
casos em que os rotores das caudas partiram e as aeronaves caíram
no chão como pedras. Uma vez, numa operação de resgate de vítimas,
o helicóptero teve uma grave avaria e valeu-nos a perícia do piloto
que conseguiu desligá-lo no ar. Acabamos por cair desamparados na
mata. Felizmente, ninguém morreu.
No primeiro ano de comissão (1965/66), os militares mortos no
Ultramar não tinham direito a transladação para a Metrópole e nós
não os podíamos transportar. Infringindo as normas, arranjávamos
maneira de os resgatar, mais que não fosse para lhes fazermos um
funeral digno. Colocávamos os cadáveres nas aeronaves e depois
dizíamos que os homens tinham morrido a bordo.
Como fazia parte da tripulação de helicópteros, vi a guerra do
Ultramar do ar. Só descia à terra para resgatar os feridos e os
mortos, uma missão talvez mais complicada do que combater com as
forças inimigas no meio do mato. Tínhamos de contar os mortos e só
pela minha mão passaram mais de 60. Foi terrível e hoje ainda
acordo a meio da noite a sonhar com esses momentos trágicos. A
maior parte dos corpos de homens caídos em combate foi levada para
Nambuangongo, cujo cemitério depressa ficou lotado. Em 1966,
restabelecendo a mais elementar justiça, o Estado passou a
assegurar o seu transporte de regresso à Pátria.
A nossa principal actividade desenvolveu-se na zona dos Dembos. À
medida que as operações militares decorriam, saíamos ao nascer do
dia de Luanda e só no ar é que recebíamos instruções sobre o nosso
destino. Ficávamos nos acampamentos do Exército, em melhores ou
piores condições, mas todos juntos: oficiais, sargentos e cabos
especialistas. Éramos quem levava os militares, sobretudo os
pára-quedistas, para os teatros de operações. Para os colocar no
mato, cada Alouette transportava cinco tropas, além do piloto e de
um mecânico.
No interior do helicóptero assisti às cenas de desespero daqueles
que tinham de saltar para a selva, alguns deles para a morte.
Muitas das vezes eram empurrados porque não tinham coragem para se
atirar. Alguns partiram pernas ao chegar ao chão, porque a
vegetação era alta e o helicóptero não podia baixar mais. Quibala
Norte, Bela Vista, Santa Eulália, Quibaxe, Quicabo, Piri, Zala,
Úcua e a mítica Nambuangongo foram as zonas que mais nos serviram
de base.
No terceiro trimestre de 1965 falou-se que Ernesto Che Guevara
estava a combater na fronteira do Congo com Angola. Para nos
certificarmos da veracidade da informação fomos para São Salvador
do Congo. Participámos em várias operações na zona, por exemplo em
Cuimba e Serra da Canda, mas nunca obtivemos qualquer confirmação.
O mítico guerrilheiro refere no seu livro 'Congo' que estava lá
nessa altura, mas a combater ao lado dos oponentes a Mobutu.
No terceiro semestre de 1966, com a ida da facção Chipenda para o
Leste, a guerra agravou-se na zona. Disseram-nos que íamos para lá
por oito dias, mas só fomos substituídos ao fim de 45.
Estabelecemo-nos no recém-formado aeródromo-base no Cazombo e daqui
partíamos para onde fosse necessário. Andámos pelos 'cus de Judas'
- magistralmente descritos por António Lobo Antunes - estivemos em
Lumbala e noutras terras perto da fronteira da Zâmbia. Nessa zona,
os Fuzileiros e os Comandos foram os nossos principais
companheiros. Levávamos os feridos para o Luso. A Esquadra 94 foi
constituída em 1963 e continuou operacional até deixarmos Angola.
Quem por lá passou jamais a esquecerá.
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